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NILSA HERNANDEZ

“Venha no outro mês”. Era tudo o que Nilsa escutava quando ia buscar seus antirretrovirais nos postos de saúde venezuelanos. Trinta dias depois, a sentença se repetia. O que pareceu ser uma falha pontual ganhou reprise. E durante seis meses, esse era o único retorno obtido.

Quando os trinta dias viraram sessenta e depois noventa, Nilsa disparou em uma busca desenfreada por informação. Procurou por fundações e grupos de apoio que costumava frequentar para lidar com a luta contra o HIV. Tudo o que ouvia era que as pessoas estavam morrendo, “que agora tudo está saindo do mal e indo para o pior”.  Não havia sequer como saber a quantidade de agentes infecciosos que residem em seu corpo. Um exame para medir a carga viral sai por vultuosos 2,5 milhões de bolívares. Mais de três vezes o valor do salário mínimo no país. O tratamento é gratuito, mas não existe mais. “Então me voy”, disse ela. Vou para o Brasil.

Essa é a narrativa dos venezuelanos que dependem de antirretrovirais para sobreviver. Eles até podem vivem com o HIV no corpo, mas se fizerem o tratamento adequado, não desenvolvem a doença causada pelo vírus: a aids. Também se tiverem acesso aos medicamentos, sequer vão transmitir o HIV para seus parceiros - ainda que em relações desprotegidas de preservativo - ou para os filhos.

 

Até outubro de 2017, a rotina de Nilsa Hernandez, 63 anos, era calculada sem muitos imprevistos. Cuidava da casa, dos netos, dos filhos e bisnetos. Para complementar a ajuda, quase sempre insuficiente, de uma das filhas, fazia bicos como verdureira.

Certeiro mesmo era seu compromisso com o tratamento para o HIV. “Três comprimidos às 8h da manhã”, ela mesma lembra. Desde que pôde tomar as medicações, não as deixou um dia sequer. Na Venezuela funciona assim, se você não está doente nem adianta pedir remédio. "Esperam que este intruso deteriore nosso sitema imunológico para termos direito ao tratamento."

Foi quando Nilsa entrou em depressão pelo filho morto aos 17 anos por “las muchachas” – em uma briga por mulher, que ela  conseguiu se tratar. Suas céluas de defesa, as CD4, se reduziram a 300, número que em um indíviduo saudável varia entre 800 e 1200.

 

A quantidade de vírus em seu corpo começou a baixar novamente quando, cinco anos depois, o outro filho morreu. Pelo mesmo motivo. Nascida em um país que está entre os 20 mais violentos do mundo, e o segundo mais perigoso da América do Sul (de acordo com o Global Peace Index), restou a ela a depressão e uma forte pneumonia que quase lhe tirou a vida. Hoje, Nilsa sujeita-se à conformação. 

ciudad Bolívar

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Após doze anos sobrevivendo aos traumas, em 2018 ela se sentiu golpeada de novo. Lograva uma vida com carga viral indetectável, ou seja, a quantidade de vírus em seu corpo era tão pouca que os exames sequer conseguiam detectar, quando a crise se instalou em seu país. E, novamente, as taxas subiram. Nilsa se enfermou. Ficou gripada e com o corpo debilitado. Há seis meses sem medicamento, se viu obrigada a trocar a pátria, a família e tudo o que construiu em 60 anos de vida por antirretrovirais e uma morada de favor. Não era a cura para o HIV, mas o único remédio para impedir que ele se convertesse novamente em aids foi um bilhete ônibus que desembocou no Brasil.

Roraima tornou-se o eldorado dos soropositivos. Amigos de Nilsa começaram a se programar. Se conseguirem trabalho, ficarão em definitivo. Porque enquanto se estiver próximo aos antirretrovirais, há chance de vida. Onde quer que seja.

O diagnóstico

“Nesse dia eu morri. Sempre fui uma mulher caseira. Pensava que pudesse ter qualquer doença, menos essa. A culpa é da má informação. Quando descobri, pensei que meu mundo estava vindo abaixo. Nesse dia a língua ficou branca. Nesse dia me deu febre, diarreia. Nesse dia senti tudo. Me tranquei no quarto… e a pergunta de sempre: “Por que yo?”. Por que eu?”. Foi há 13 anos, mas o ocorrido ainda lhe arranca lágrimas.

 

Quando toca no assunto, a voz esmorece, o corpo diminui. A face rugosa e o sorriso descomplicado evidenciam que a vida por lá não era fácil. Tentando segurar o choro, abanando as duas mão para fazer vento e assim secar os olhos, ela faz questão de explicar. O ex-marido morreu em decorrência da aids e Nilsa sentiu-se sentenciada de morte. “Estava gorda, não sabia que estava doente. Quando ele morreu já estávamos separados e o doutor mandou me chamou para fazer o teste. Estava lá. Positivo.” A essa altura, ela já estava no segundo casamento e amamentando um menino. Para ela, foi “por Dios” que o segundo marido e o pequeno não se infectaram. Foi Deus.

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Ainda assim, ele fez o que Nilsa chama de “um sacrifício de amor”. Disse aos parentes que foi ele que a infectou. Enfrentou a discriminação da própria família por uma doença invisível que sequer possuía. “Fez isso por mim.”

Com apoio do segundo marido e dos filhos, ela voltou a olhar para fora de casa. “Comecei o tratamento e me acostumei a viver com ele.” Se embrenhou em grupos e fundações de pessoas vivendo com HIV/aids. Tornou-se ativista. “Me perguntavam porque eu ia tanto às reuniões. E eu respondia: bom, quando chegar a cura, eu serei uma das primeiras.”

O segundo casamento se acabou porque ele não queria se proteger. “Evitei que ele entrasse para a contagem de pessoas vivendo com HIV”, defende-se. 

 

Nilsa chegou ao Brasil com seu terceiro marido. O mais recente companheiro tem certidão de nascimento brasileira. Adotado por um alemão e uma mineira, saiu desde muito jovem para ganhar a vida nos garimpos da Venezuela. Alex Schaeffer também carrega o vírus em um corpo que não parece, mas está desgastado. Há mais de 12 anos trabalhando nas minas, coleciona doenças como gastrite, problemas de coração e pulmão, típicos da profissão. Ficou três meses hospitalizado, depois de passar dois anos sem cuidar do HIV. Ouviu-se dizer que suas células de defesas chegaram a quase zero.

Nilsa e Alex se conheceram na época em que tratamento ainda não era sinônimo de luxo no país de Nicolás Maduro. Ela até que relutou para não se envolver com um brasileiro. “Tinha raiva porque foi com uma brasileira que se infectou meu marido que morreu de aids. E logo, infectou a mim. Foi por isso a separação, ele vivia com uma brasileira.” Ela também prometeu a si mesma que não iria se envolver com um soropositivo. “Voy morir de dolor”, dizia. “Pensei que iria morrer de dor se visse ele cair.” O medo de não suportar a agonia de ver um amor doente de aids quase a colocou distante de Alex. À revelia de seus planos, ficaram juntos por onze anos.

Vida no Brasil

O país que Nilsa culpava por arrancar suas forças no decorrer uma trajetória marcada por medicamentos, depressão, terapias e grupos de apoio, hoje lhe devolve a fé. Com apenas um mês em Roraima, já sentia saudade até do tempero da comida e do sol mais ameno da Ciudad Bolívar.

Ainda assim, quando questionada se pensa em voltar para a Venezuela, a resposta vem antes mesmo do fim da pergunta. Não. “É duro porque isso é o responsável por nos separar de nossa família. Estar longe deles tem me afetado muito.” É grande a angústia de quem deixou os oito filhos e nove netos, duas bisnetas para trás. Conseguiu trazer à tiracolo, apenas o neto Brian, doze anos, de quem é responsável pela vida desde três dias de nascido. “Esse não deixo por nada.”

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Quando a reportagem encontrou Nilsa, em março de 2018, ela já demonstrava os efeitos de um sistema imunológico frágil e dependente da medicina. Estava doente. Sentia gripe, febre e temia que a pneumonia retornasse.

A despeito das dificuldades, ela pensa que seria “demasiado pedir mais”. “O hospital aqui é uma felicidade”, disseram eles espantados com o atendimento que, para eles, acontece de maneira eficiente. Ficaram agradecidos por não exigirem qualquer tipo de documentação brasileira ou burocracia para serem atendidos. “Acho que eles pensam… os papéis são com a polícia, aqui nós cuidamos de saúde. Depois se resolvam lá“, diziam satisfeitos com o início da nova jornada.

Enquanto houver saúde e comida, é por aqui que vão ficar. Nilsa se recorda bem de passar a noite na fila do supermercado para conseguir comprar alimento. Empurram. Brigam. Batem. Um dia desses, já em Boa Vista, Bryan viu Alex saindo com algumas moedas. Quando voltou com um pacote de macarrão, o menino mal podia acreditar. Ele perguntou com olhos pasmos “onde comprou isso por tão pouco?”. “Bom, na Venezuela com moedas não se compra nada. Aqui sim”, respondeu.

A família dormiu na rua nos primeiros dias. Depois, conseguiram alugar um quartinho de 300 reais que abrigavam os três apertados em uma pensão. Viviam com medo de serem expulsos a qualquer momento pela senhora que já não aceita mais venezuelanos no local. Nem sob pagamento quer refugiados por lá.

 

O anseio de Nilsa é constituir um lar que possa servir de amparo para pessoas que vivem com HIV se abrigarem temporariamente, enquanto fazem o tratamento. Mas, por enquanto, “seria demasiado pedir”, dizia ela. Até março de 2018 era apenas sonho. 

Os Valientes

Meses após o encontro com a reportagem do Estamos Aqui, Nilsa conseguiu uma morada. A Agência de Notícias da Aids é a empresa responsável por pagar mensalmente o aluguel da casa que abriga Nilsa, Brayan e já acolheu temporariamente 78 pessoas que vivem com HIV e outras patologias, como doenças renais e câncer, na busca por medicamento e profissionais de saúde. 

A quimera de Nilsa agora tem endereço. Na rua Nicanor Fabricio dos Santos, a casa simples fixada no número 714 representa o início de um projeto que visa estabelecer um fluxo de atendimento para dar acesso a tratamento médico e, consequentemente, uma melhor qualidade de vida aos venezuelanos que necessitam de acesso à saúde, bem como brasileiros que vivem em situação de rua. 

A casa funciona como um centro de acolhida para este público, e providencia questões essenciais para as

pessoas que lhe recorrem como alimentação, documentação necessária para acesso ao sistema de saúde, transporte para hospitais e orientações gerais a respeito de exames, prevenção e conscientização em torno de Infecções Sexualmente Transmissíveis. 

 

Além do apoio com o aluguel da casa, Nilsa conta com doações de alimentos, kits de higiene e limpeza, e através da venda de balas e doces, consegue pegar a conta de energia e água da casa. 

 

Ela realiza palestras e atividades que lidam com a saúde sexual e reprodutiva de mulheres e pessoas vivendo com HIV, bem como conscientização a respeito da realidade dos imigrantes no estado de Roraima e no Brasil. 

Você pode apoiar os Valientes

Com seu apoio, os Valientes Por La Vida podem adquirir suprimentos às pessoas com HIV acolhidas. Apoio às campanhas para conscientização e prevenção ao HIV na cidade de Boa Vista. 

© 2019 por Estamos Aqui